Um desabafo e a minha visão sobre a Tradição Feri de Bruxaria

– Fae, março de 2022.
Antes da minha primeira iniciação eu acreditava que Feri poderia ser ensinada em grande escala. A minha primeira professora Feri, Vee, ensinava para grandes grupos e com certeza ela foi a pessoa que mais iniciou pessoas na tradição que eu tenho notícias nos últimos tempos, por volta de 20 bruxas, um número colossal apesar das muitas décadas de trabalho dela. Vee morreu no fim do meu treinamento, o que é lembrado vive.
Apesar dos números, a taxa de iniciados dela era baixíssima levando em consideração o número de pessoas que estudavam com a mesma. Da minha turma eu e mais uma pessoa continuamos o treinamento com outro iniciado e chegamos nos Portões da Iniciação. Muitos anos depois mais algumas pessoas passaram pelo mesmo nas mãos de outra iniciada. Em uma turma de 20 boa parte sumia durante a jornada, e nem todo mundo que chegava no final era iniciado. De fato, treinamento não garante iniciação, repetimos isso constantemente, apesar de que aprendi que uma pessoa só deve ser treinada se ela quiser ser iniciada. E esse é o maior pré-requisito para entrar na tradição, na minha opinião.
Nos últimos 5 anos eu falei cada vez menos sobre a Tradição Feri de Bruxaria no meu perfil. Bom, eu ainda falo de muitas coisas que acontecem dentro dela e minha arte também é profundamente enraizada nessa Tradição de Fadas. Esse movimento foi proposital. Eu me recordo que antes da minha primeira iniciação eu sempre pensava que Feri tinha que ser democrática e que ensinar em grande escala funcionava. No dia seguinte da minha iniciação eu percebi que o trabalho era bem mais difícil do que eu pensava.
Minha primeira iniciação foi em 2019, no primeiro ano eu senti a Corrente entrando deliciosamente no meu corpo e se assentando em meus ossos, meu sangue e minha carne. O lore ensina que o primeiro ano de iniciado é especial, pois a Corrente vai se aterrando no corpo da bruxa. E demora até ela tomar conta de cada parte. Eu me senti 24 horas como uma enorme flor abrindo em todas as direções. De fato, desde então a minha forma de me expressar no mundo mudou, incluindo a minha aparência. Minha arte vazou para todos os lados, e com certeza outras bruxas de linhagens iguais ou próximas me reconhecem devido a isso. Assim como eu as olho e identifico o trabalho estranho dessa Corrente de Poder. Nossas histórias sempre falam que o primeiro ano pós-iniciação é quando a Corrente de Poder vai se acomodando dentro do corpo da bruxa. Um desabrochar estranho e assustador acontece. E o iniciado deve respeitar esse período saboroso.
Depois desse primeiro ano a corrente de Poder me arrastou de forma desconfortável e mistérica. Foi assustador e chocante, mas dava para sentir que o mistério estava ali. Eu deixei os espíritos me despedaçarem (mais uma vez) para que eles pudessem me remontar. Eu tive que confiar naqueles espíritos que tinha acabado de conhecer, e me segurar nos que já conhecia. Eu fui arrastade para diversos mundos. Nesse meio tempo eu comecei junto de Lilo a treinar um pequeno grupo de pessoas. Todas essas pessoas tinham pedido treinamento, mas tiveram que esperar até quando pudéssemos aceitá-las. Tudo na Feri leva tempo.
Tempos depois eu fui iniciade uma segunda vez, algo raríssimo dentro da tradição, aconteceu algo assim apenas 6 vezes, com 6 bruxas diferentes e boa parte dos motivos foram diferentes e cercados de mistérios e reviravoltas. E assim mais uma linha Feri me adotou, mais nomes de bruxas para decorar. Eu amo demais ambas as linhagens que carrego no meu corpo, mas tudo isso fez parte do mistério que me arrancou de um lugar de muitas certezas e me jogou naquilo que é perigoso. A Corrente é viva e escava de forma abrupta ou delicada os caminhos daqueles que são Feri. E a Corrente me mostrou o seu poder desconfortável, descontrolado e brilhante, me chamando com sua voz de trovão para o abraço dos misteriosos.
E tudo isso começou com uma única visão dos outros mundos que desencadeou em uma segunda iniciação. Visões dos outros mundos podem fazer isso, elas impactam, torcem e distorcem as linhas do destino. Aquilo que era errado se torna certo, o azar vira sorte, as incertezas se tornam certezas e vice versa. O calmo se torna terrível, o que é verde morre, e a cura se torna veneno. A fome se transforma em saciedade, o amargo vira o mel mais doce, e a confusão se torna a luz do amanhecer.
Em Feri, existe apenas uma iniciação. Depois que você passa por ela você é igual a qualquer outra bruxa iniciada. Não existem hierarquias entre iniciados. Se você passou pela iniciação hoje, você é igual a mim. Simples e direto. Qualquer tentativa de controle direcionada a outro iniciado, que são completamente independentes, é um sacrilégio contra a Corrente Selvagem que carregamos. Nem mesmo o cargo de Grão Mestre (Grandmaster) na tradição significa ter poder sobre outras bruxas, muito pelo contrário, é um cargo para “cuidar da tradição”. Mas sinceramente não sei por quantas gerações esse cargo vai continuar a existir. E existem bruxas que ignoram completamente esse cargo, assim como existem bruxas e linhas inteiras que cagam para o sistema de Varinhas. Qualquer forma de hierarquizar causa motins e revoltas. Eu acho isso saboroso, Feris tem talento em incendiar tudo sem nenhum peso na consciência.
Recolhendo informação aqui e ali percebi que um bom treinamento Feri dura em média de 3 a 7 anos. Tem gente que passa dos 10. (eu acho tempo demais, mas acontece). A questão é que o trabalho para fazer novos iniciados é bem maior do que eu imaginava e muito mais visceral do que apenas ser levade pelo Rio da Iniciação. Treinar alguém é passar novamente por todas as técnicas, abraçar todos os Espíritos da Tradição como se fosse a primeira vez. Mensalmente eu tenho um grande número de horas que dedico apenas para o treinamento, fora as horas de aula, tempo de consulta oracular, rituais e afins. Há muita coisa a ser feita e isso não é simples. Isso sem contar o próprio trabalho da bruxa Feri, que é diário. E escutar atentamente cada um dos espíritos, e são muitos.
Eu fico triste toda vez que alguém busca a tradição e eu preciso dizer não, principalmente se as pessoas foram educadas nesse contato. Por outro lado, eu tenho uma série de pré-requisitos para aceitar estudantes, e claro, eu preciso ter tempo disponível. Algumas pessoas chegam para pedir treinamento sem serem muito educadas, achando que é uma obrigação de uma bruxa Feri oferecer treinamento. Uma informação muito importante sobre a Feri é: ninguém que seja iniciado precisa treinar outra pessoa ou fazer um serviço de doação de seus conhecimentos, ou qualquer serviço comunitário. Feri não é sobre isso e parece que muita gente que segue outros caminhos da arte ficam extremamente confusas com essa informação. Uma bruxa Feri apenas fará outras bruxas Feri se isto estiver incluso no trabalho do Deus dela. (Oração tradicional da Feri: “Quem é esta flor acima de mim, qual o trabalho deste deus?”) Se isso não existe, ela não vai fazer.
Nenhum iniciado precisa fazer nada para a tradição crescer. A Corrente de Poder e Selvagem é esperta, ela se ancora no mundo como desejar. E se Feri um dia não receber mais nenhum estudante assim será. Não existe um senso de que precisamos fazer novas bruxas a todo momento. Faz quem quer, e quem não quer é só não fazer. A ideia de que a Feri possa desaparecer debaixo do monte não é vista com pavor. Acredito que algumas bruxas estranhas até iam gostar. Já estamos iniciadas, elas diriam, podemos partir com os espíritos para qualquer lugar a qualquer momento se a Corrente convocar. E talvez a Corrente apareça em um novo pequeno grupo, em outra Era ou Tempo.
Isso deve ser um pouco confuso para quem encara o Sacerdócio como servir a população, ao invés de entender o Sacerdócio como um trabalho a ser feito ao lado de um Espírito, que precisa de suas mãos para realizar aquilo que Ele não consegue fazer. E como prêmio o Espírito usa as mãos poderosas para fazer aquilo que não conseguimos fazer. Então ganhamos sorte no destino à nossa frente. Mas dentro da Feri, sacerdócio não é algo que possui consenso. Algumas bruxas possuem sacerdócio para alguns espíritos da tradição, outros alegam que toda iniciação é um sacerdócio para nossas divindades e outras dirão que não estão sabendo de nada disso e que são apenas bruxas. Ainda terão algumas que terão sacerdócios com espíritos que não fazem parte da “corte da Feri”.
Mas de fato a iniciação parece ser algum tipo de casamento não-monogâmico com muitos espíritos ou ainda uma adoção em uma grande nação que envolve espíritos e humanos, além da Corrente que precisa entrar em cada uma das bruxas. E quando isso acontece a sorte desses espíritos vazam para todos os lados, indo para o futuro e inundando o passado. É comum entre iniciados histórias em que espíritos Feri os visitaram durante a vida, na infância e quando ainda não eram bruxas iniciadas. Também existe um senso que se você está destinada a ser Feri, você será iniciada nem que seja em seu leito de morte. Você chegará à Nação por mãos humanas, por mãos de amor.
Para entender a magia da Tradição devemos lembrar das Harpias. Um grupo diverso que compunha o Harpy Coven. Essas pessoas vinham de diversos lugares, principalmente do Sul dos EUA. Essas pessoas se estabeleceram no Oregon fugindo da crise que antecedeu a Dust Bowl, foram tempos difíceis mas que uniu os membros Harpias. Para a comunidade essas pessoas se passavam por bons cristãos mas secretamente celebravam Ritos Antigos e entravam em contato com Espíritos que eles chamavam de os Antigos. Em 1932 o Harpy Coven recebeu Victor Anderson como membro. Boa parte da tradição alega que uma fatia saborosa da nossa magia vem desse lugar.
Outra informação preciosa é que Victor Anderson era um grande Andarilho Astral. Todo mundo sabe que Cora Anderson se casou muito rápido com Victor. E foi assim por um motivo, eles se conheceram nos Outros Mundos muito antes. E quando se conheceram nesse mundo se uniram e ficaram assim até o fim da vida. Victor iniciou Cora nesses misteriosos Ritos Antigos. Mas antes disso tanto Cora quanto Victor já possuíam diversas habilidades com os espíritos. E meio que isso permanece até hoje, Feri não é feita para quem não tem magia. Toda pessoa admitida precisa ter algo que os iniciados reconheçam. Experiências viscerais com os outros mundos é outra fatia saborosa da tradição que vem dessas idas aos outros mundos, daqueles que vieram antes e daqueles que vão agora.
Nesses tempos antigos, Feri não tinha esse nome. Era a Arte sem Nome, Ritos Antigos, apenas Arte ou simplesmente aquilo que não é dito. Na década de 60 e 70 com a chegada de novas bruxas às Américas, um famoso iniciado chamado Gwydion Pendderwen junto de Victor nomearam essa arte de Faery (e todas as variações possíveis de escrita). E isso pegou no gosto dos iniciados e se alastrou por todos os lados. Posteriormente, devido a diversas tradições de wicca que emergiram e começaram a utilizar o termo faery Wicca, a nossa escrita virou Feri. Mas ainda há muitas bruxas que usam o Faery por aí. Eu gosto de Feri, mantém a magia das fadas, a ferocidade e o ferro bem aparentes.
Agora eu vou listar meus 6 pré-requisitos para receber estudantes e informações adicionais:
(Ou que o acho que uma pessoa deve ter para adentrar no meu Clã)
Parte desses requisitos surgem de intermináveis conversas com Lilo Assenci, e de observações do modus operandi de outros iniciados.
Lembrando que esses requisitos não levam em consideração se terei ou não tempo de receber um estudante. E se o problema for esse eu posso sinalizar em qual horizonte possível um dos meus estudantes provavelmente chegará na iniciação. Mas Feri leva tempo, tudo precisa de muito tempo. A primeira vez que entrei em contato com um iniciado foi em 2014, muitos anos antes eu li pela primeira vez sobre a tradição e um nome me marcou de forma profunda. Em 2017 iniciei meu treinamento e no final de 2019, no Solstício, fui iniciade.
1- A primeira coisa que eu falo é que: só deve buscar estudo na tradição quem deseja de forma visceral a iniciação. Não faz sentido querer estudar Feri, sem querer a Corrente de Poder. Algumas pessoas confundem isso e acham que Feri é uma escola onde você pode fazer um curso livre e sair sem o diploma. Não, definitivamente não. Haverão iniciados que vão ainda mais longe afirmando que não faz sentido pessoas que não queiram uma iniciação realizar práticas Feri e chamar seus Espíritos.
E eu entendo essa afirmação em partes, pois se essas ferramentas funcionarem e os espíritos responderem onde estarão as mãos humanas para juntar o corpo despedaçado da bruxa? Em Feri é necessário mãos humanas, pois o poder puro pode trazer o caos e levar à insanidade. Sem mãos humanas, seria como se um raio atingisse uma pessoa e ela explodisse como um tronco velho de uma árvore. E aqui entra a velha lenda que os Espíritos Feri podem matar, enlouquecer ou transformar o indivíduo em um poeta com língua de prata. Eu sei que inúmeros grupos utilizam ferramentas Feri a torta e a direita. Eu não sou ninguém para proibir tais práticas, até porque as ferramentas realmente funcionam.
Quanto aos Espíritos eu acredito que ninguém de fora deveria chamar por eles, exceto se for uma pessoa em treinamento ou que deseje muito a tradição (mesmo que seja perigoso). E eu lembro que livros não podem ensinar Feri. E que cada ferramenta dentro da Feri é encadeada com outras ferramentas para que a bruxa tenha um corpo preparado para receber essa Corrente de Poder. Feri não é segura, nunca foi e nunca será. Feri pode ser estranhamente desconfortável na melhor das hipóteses. Há riscos reais que envolvem o treinamento e a iniciação. E se vocês usarem as ferramentas de forma real vocês encontrarão esses desconfortos de forma estranha e visceral.
2- Ter magia em seu corpo, ter Feri em seu corpo e ter experiências nos outros mundos. A Vee deixava claro que não recebia “Noobies” em Feri. Victor Anderson foi recebido pelo Harpy Coven, que reconheceu muito de seu contato com os espíritos, incluindo uma misteriosa Iniciação nos Outros Mundos. A maioria dos iniciados, e eu falo maioria pois não conheço todos, procuram Feri nas pessoas que estão pedindo treinamento. Isso acontece pessoalmente na maioria dos casos.
Uma Iniciação Feri espalha seu poder para todas as direções, então é possível reconhecer Feri mesmo a pessoa ainda não sendo oficialmente Feri. Ela tá lá, debaixo de camadas e mais camadas. Isso parece ser difícil e exige prática. Mas é essencial para treinar uma pessoa. Identificar algo que pareça a própria corrente. Identificar algo que já está dentro do iniciado em alguém que ainda não foi iniciado.
No meio dessa magia estranha os próprios Espíritos da Feri podem interceder pela pessoa que quer adentrar no caminho. Seja enviando sonhos bem diretos, ou vindo pessoalmente ao encontro da Bruxa apta a treinar, compartilhando seus desejos em relação ao futuro estudante. Quando isso acontece os requisitos são todos preenchidos. Haverão professories ao redor do mundo que não possuem requisitos claros, mas que depois de um encontro topam levar o estudante pelo Rio da Iniciação. Alguns deles se baseiam em uma certeza que está ancorada na segunda Visão.
3- Estar disposto a ter um relacionamento profundo com seu iniciador. Um treinamento exige horas e mais horas de conversa e de aula. No Clã que faço parte as pessoas precisam estar em presença pelo menos duas vezes por ano após o primeiro ano de treinamento. Estar perto é algo muito importante para que se possa treinar, intimidade é algo que precisa ser desenvolvido e a iniciação só deve acontecer se ambas as pessoas confiarem uma na outra. Também precisarão estar em presença no que chamamos de Prova de Fogo, que é um rito de passagem simples para a pessoa ser admitida em uma camada mais profunda do treinamento.
Lembrando que treinamento não garante iniciação, e qualquer uma das partes pode encerrar o processo desde que seja conversado. É educado dizer tchau quando for embora e qualquer tipo de ghosting é visto como uma ofensa. Lembrando que a Bruxa Iniciada pode encerrar o treinamento, principalmente se o treinamento não estiver dando respostas. Um treinamento muda a pessoa, e isso fica claro durante o processo. E caso a interrupção aconteça não será de repente, uma série de avisos são dados para que o caminho rumo à iniciação seja retomado, caso mesmo assim o rio da iniciação não seja alcançado a pessoa será convidada a se retirar. Se mesmo assim a pessoa ainda desejar Feri ela pode pedir novamente depois de um ano à bruxa que a treinava ou à outro iniciado. E falamos um ano pois é um tempo razoável para uma pessoa mudar completamente seus hábitos e sua vida.
Eu faço parte de um clã familiar, durante o treinamento os estudantes estão sob a proteção desse clã, e ter a ciência que após a iniciação você estará oficialmente na família dessa Linha. Independente dos trabalhos futuros e diversos que possam acontecer, a sua linhagem será a sua linhagem para sempre, e você aprenderá os nomes de cada um, e quando morrermos vocês ainda dirão nossos nomes. E os seus filhos de iniciação dirão também os nossos nomes, até o dia em que a linha decidir retornar para dentro do monte.
No mais tomaremos litros e mais litros de chá ou café, comeremos macarrão com molhos, pizzas e feijoada vegana. Tomaremos banho de mar depois dos rituais, beberemos vinhos, sucos ou drinks. Passaremos horas na cozinha ou estirados no sofá. Poderemos fofocar, falar sobre magia e experimentar os outros mundos juntos. Falaremos horas a fio sobre a aparência estranha dos outros mundos e dos espíritos. Compartilharemos alguns segredos de clã, e mostraremos que nem tudo pode ser compartilhado. E um dia cantaremos os sons proibidos. Lembrando que Feri é uma arte extremamente simples, o que faz ela ficar complexa é nossa relação com os Espíritos.
4- Que tenha tendências anti-cristãs e desejo pela mística sexual. É certo que existe um pouco de misticismo cristão dentro da Feri, mas isso com certeza habita muito mais um local de oposição do que qualquer outra coisa. Constantemente vemos Victor e Cora se posicionando contra o que chamamos de “Falso deus”, eles usavam exatamente esse termo. (esse deus monoteísta que alega ter onisciência, onipresença e onipotência- uma desculpa perfeita para controlar nossos corpos sexuais e sensuais.)
Nos tempos antigos os futuros iniciados, antes de adentrarem os ritos tinham que dizer em voz alta: Sexo, Orgulho, Self, Poder e Paixão. Como forma de reivindicar essas pontas do Pentáculo de Ferro e também de alguma forma rejeitar todos os ensinamentos e crenças do cristianismo. O simples fato de pronunciar essas palavras era o movimento necessário para profanar a bruxa, e assim ela poder entrar totalmente purificada em um ritual de iniciação. Se a pessoa hesitasse, ela não era iniciada. Hoje parece algo bobo, mas imagine para o pensamento anterior aos anos 50. Inclusive Victor Anderson chegou a ser acusado de Satanismo.
Lembrando que no Centro da Feri existe a Deusa Estrela. A Antiga, a Fonte Primordial, o Nosso Moinho. Deus, Ela Mesma. Não há um deus punitivista aqui, é uma Deusa, clitorofálica, ainda assim uma Deusa. Fora que os mitos Feri e Espíritos orbitam esse ser, e tornam nossa tradição um caminho Animista, Politeísta e que adora o que é paradoxal.
Essa Deusa conta uma história de êxtase. Existe aquilo que chamamos de fertilidade, mas o centro de tudo está no que é extático. Nossos espíritos querem que aqueles que carregam a Corrente sigam esse êxtase. Até o dia que retornaremos para debaixo do monte.
5- Feri é uma prática marcial que nos leva a ter disciplina. Você precisa ter de 15 a 50 minutos por dias apenas para rituais diversos e práticas. Em alguns momentos esse tempo será cheio, e em outros haverá variações. Todo caminho do iniciado visa preparar um corpo para que esse não rache com a Corrente de Poder. Mais uma vez, Feri não é segura e isso é literal. Quanto maior quantidade de energia uma bruxa pode movimentar, melhor será para ela passar pela iniciação e aguentar a Corrente de Poder.
Fora isso, Feri necessita de muito espaço, e o treinamento só irá funcionar se o estudante abrir espaço em sua própria vida, não só para práticas mas também para seus espíritos. Existe uma máxima que diz que tudo que um iniciado faz na vida é um ato sagrado dos outros mundos. E isso é o que esperamos de um estudante, que ele desabroche em todos os mundos.
6- Tenha compartilhado um espaço ritual. Esse talvez seja o requisito que pode ser um pouco mais complicado. Mas garanto que durante o ano eu participo de bastante espaços rituais na outra tradição que faço parte, que é muito mais aberta que Feri. Rituais Feri quase nunca são abertos no mundo, no meu Clã os ritos acontecem apenas entre iniciados e estudantes(pós primeiro ano de treinamento).
Compartilhar espaço ritual garante que possamos observar a sua magia junto da nossa, em um mesmo lugar. Isso é valioso, mas garante também que você vá gostar do meu estilo de fazer magia. E eu falo isso pois a maioria de nós, iniciades, só frequentamos rituais que sejam agradáveis e que não entrem em conflito com nossa própria magia. Por exemplo, nunca passaria por um batismo cristão ou algum ritual que minha força vital fosse drenada, pois parte dos ensinamentos da nossa arte diz: “nunca submeta a sua força vital a nada e ninguém (V.Anderson)”. Ou ainda, não participaria de um ritual de pessoas desconhecidas ou que não se alinham minimamente com a minha forma de tecer magia entre os mundos. Sabemos que azar e sorte são acumulativas nas sendas da Bruxaria Tradicional, e eu quero continuar garantindo a minha sorte.
Feri não é uma arte exclusiva se o Coração Negro da Inocência da bruxa assim desejar. Feris podem fazer parte de outras tradições, religiões ou lugares. Mas nenhum Feri poderia se curvar a nenhum senhor. Nossos joelhos são ferramentas para correr em liberdade e apenas os altares mais antigos os merecem. Claro que durante um treinamento em meu Clã é necessário que o estudante se dedique completamente ao trabalho. Depois da iniciação não estamos nem aí, tendo trabalhado corretamente o seu Coração Negro vai Desabrochar. Seja nos nossos rituais ou num mosteiro no Tibet. Ninguém liga. Feri é um povo e uma nação, não existe desistência ou expulsão. Aqueles que tentaram no passado falharam de forma miserável. Não importa o que o iniciado faça, moral ou amoral, ético ou não, a Corrente não o abandona. Por isso todos os clãs do mundo fazem esse trabalho ser completamente intimista.
Toda informação contida aqui fala sobre a Linha da Feri que pertenço, “Coelhos da Lua” ou “Clã dos Coelhos da Lua”, também fala um pouco das duas linhas que me criaram, e as linhas anteriores. E também é sobre a minha própria experiência nessa tradição selvagem. Esses requisitos funcionam para o meu Clã Familiar e para as minhas mãos amorosas, mas cada Bruxa Feri tem total autonomia para corromper, discordar e refazer esses requisitos, e isso é saboroso.
Bom, esse texto é uma carta de amor à Feri, a minha prática mais íntima. Que ele seja uma tocha para aqueles que adentrarão o caminho, pelas minhas mãos ou de outra bruxa. Esse texto também é um aviso, a Corrente me convocou novamente, e as linhas do meu coração saem pelos meus lábios. Não deixarei mais de falar diretamente sobre Feri, os 5 anos de silêncio acabaram.
Com amor, paixão e poder,
Fae
Yuki Fae (elu) é Bruxa Queer, iniciade Feri, do clã Coelhos da Lua, Praticante das artes ocultas, Tarólogue, Oraculista, Feiticeire, Alune e Professorie. Envolvide com a Tradição Reclaiming, é co-idealizadore da comunidade Reclaiming Brasil. Possui envolvimento intenso com práticas mágicas ligadas ao tarô, bem como foco no trabalho mútuo com os espíritos da terra e dedicação ao trabalho de autopossessão diário. Acredita que quando curamos a terra, o coração da humanidade é curado simultaneamente.
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