
Nesta época do ano, onde os dias e as noites se tornam cada vez mais iguais, e Primavera se torna selvagem, presente e viva, trago a tradução de um dos poemas mais lindos de Victor Anderson. “Quakoralina, a Deusa Estrela” está no livro de poesias “Thorns of the blood rose“, publicado pela Harpy Books desde 1970. Contendo as fundações da Tradição Feri, Victor certificou-se de que nossas liturgias fossem poesias dedicadas à Ela, a Deusa central de nossa Casa de Bruxaria. Entre seus muitos nomes, Quakoralina é um dos mais utilizados por Victor desde o início de sua jornada na Arte até a sua morte.
Hoje, esta tradução é uma carta de amor para Ela, que se vê dançando em frente ao Espelho Negro e Curvo do espaço, e também uma oferenda a Victor e Cora Anderson – Ancestrais da Arte, Mortos Poderosos, que se fazem presentes mesmo depois de suas passagens além do Véu, para as Colinas Ocas, através de suas palavras, de seus ensinamentos, e de sua magia. O que é lembrado, vive!
Quakoralina, a Deusa Estrela
Uma linda mulher negra está esperando, esperando,
Na noite infinita.
Um rio de pássaros negros estão acasalando, acasalando,
Sob a penumbra das estrelas.
Descendo do céu eles vêm voando, voando,
Atraídos por sua chama negra,
E a melodia que eles estão cantando, cantando,
É o santo nome Dela.
Na poeira de Seus pés estão as hostes do céu,
E seus cabelos de brilhos estrelados
São coroados com um coven de seis e sete
Sóis azuis queimando lado a lado.
Ela me mostrou o terrível esconderijo
Onde o Ovo da Pomba repousa,
A maravilha e a alegria do uno virando duo
A divisão da noite e do dia.
No amor além do amor Ela está chamando, chamando,
Até que o mar conceba,
E a chuva que dá a vida vem caindo, caindo,
Na terra frutífera.
Onde sob salgueiros verdes um riacho está fluindo
Lá o pinheiro alto e escuro
Em seu coração resinoso está crescendo, crescendo,
Com um impulso divino.
Embora aprisionado com correntes em um mundo de tristeza
E de fedor dos homens,
Seu beijo no amanhã me lembra
Onde minha alma esteve.
A noite logo chegará quando meu espírito, voando
Para a liberdade e para o descanso,
Cairá como um zangão morrendo, morrendo,
De amor em Seu seio.


Lilo Assenci (ele/elu), vive nas terras colonizadas do povo Tupinambá, as margens da Baía de Guanabara, também conhecidas como Rio de Janeiro – RJ. É uma Bruxa queer/não binárie, ume sacerdotize, ume Coelho da Lua, tradutore e professorie, praticando bruxaria há mais de 15 anos. É iniciado na Tradição Feri de Bruxaria, sendo co-fundadore do Clã dos Coelhos da Lua, grupo de cunho familiar de práticas Feri. É uma Bruxa Reclaiming, sendo um dos membros fundadores e organizadores da comunidade Reclaiming Brasil, co-organizando eventos, co-ensinando core classes e co-facilitando covens e rituais nacional e internacionalmente. Sua magia é profundamente orientada pelo êxtase e conectada com a experiência e contato com a terra e o mundo dos espíritos, comunhão com os espíritos humanos e não humanos, inclusividade e justiça radicais, folclore e ativismo mágico-político. Tecendo magia, cura e ativismo em um trabalho de auto possessão e integração, este é o caminho que elu encontra para encantar os mundos.